"Nós, os monarcas, somos incontestavelmente constantes em um mundo em constante transformação. Pelo motivo de termos estado sempre aqui, mas também por não nos envolvermos na política cotidiana. Estamos informados das mudanças políticas que acontecem em nossas sociedades, mas não fazemos comentários sobre isso. É nisso que assumimos uma posição única. Nenhum dos outros monarcas europeus interfere na política."

Margarethe II, Rainha da Dinamarca

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dois Tipos de Monarquistas !



Desde que iniciei este web site no outono de 2000, visei dois objetivos básicos: promover a ideologia monárquica e obter novidades e informações a respeito da realeza histórica e, sobretudo, contemporânea. Essas duas metas são igualmente importantes para mim, embora a segunda, inevitavelmente, ocupa a maior parte do web site, pelo simples fato de dispor de mais material. No entanto, em meio ao processo de correspondência e visitação dos web sites de outros que despertaram meu interesse, percebi que muitos deles tendem mais para um desses dois aspectos que para o outro.


Para mim, esta diferença sugere, a princípio, a existência de dois tipos distintos de monarquismo contemporâneo. O propósito deste ensaio é identificar, definir e explanar a respeito dessas duas tendências e esclarecer sobre minha própria posição quanto aos mesmos. Observadores da política americana são familiarizados com a crescente disputa encarniçada no contexto da direita entre os "neoconservadores" - (que geralmente defendem um policiamento severo para os estrangeiros e a livre imigração) e os "paleoconservadores" – (que geralmente defendem um policiamento não intervencionista para estrangeiros - e a imigração restrita).


Os ligados à Igreja Católica Romana também são passíveis de uma espécie similar de divisão entre "conservadores", que defendem o Segundo Concílio do Vaticano e as subseqüentes mudanças litúrgicas estabelecidas pelo Papa Paulo VI, e os "tradicionalistas, que acreditam que tais mudanças, por si mesmas, além de abusadas por modernistas, têm sido maléficas para a Igreja. (Minhas simpatias pessoais dirigem-se para o segundo grupo, em cada caso, mas isso foge ao assunto).


Estou abordando essas duas controvérsias, ambas alheias ao assunto monárquico, apenas porque acredito que até certo ponto a terminologia associada às mesmas pode aplicar-se ao tópico deste web site. Em suma, muitos dos simpatizantes monárquicos que encontrei podem ser descritos tal como "neomonarquistas" ou "paleomonarquistas", ocupando posições dentro do monarquismo de modo análogo ao das categorias políticas e religiosas descritas acima.


O que vem a ser um neomonarquista?


Neomonarquistas observam a monarquia como um elemento totalmente desligado das facções políticas da Esquerda e da Direita. Suas próprias visões políticas como que adaptam o liberalismo num conservadorismo moderado, ou podem estar literalmente desconectados da política como um todo.


No que concerne às tradições religiosas associadas à realeza, eles não costumam ser particularmente religiosos. Neomonarquistas são, a princípio, embasados no suporte da existência de monarquias constitucionais, dez das quais vigoram atualmente na Europa, e é este modelo de monarquia que eles defenderiam no caso de uma possível restauração. Muitos desses acompanham entusiasticamente a vida dos dinastas contemporâneos e tendem a conceder-lhes o benefício da dúvida, quando criticados. Neomonarquistas tendem a ser socialmente liberais, e não costumam objetar contra alianças matrimoniais não tradicionais, como, por exemplo, o caso do Príncipe Herdeiro da Noruega, com uma mãe solteira que confessou uso de drogas.


Eles adotam o multiculturalismo e vêem a monarquia como uma figura de potencial unificador dos diversos países crescentes da Europa; como, por exemplo, também, a meio-chinesa Princesa Alexandra da Dinamarca e o interesse do Príncipe de Gales pelo Islã. Eles vivem a cultura popular contemporânea e recebem de bom grado as interações da realeza com a mesma. O mais relevante a respeito dos Neomonarquistas é que eles são os monarquistas que estão em paz com a modernidade e não vêem um conflito fundamental entre o monarquismo (eles preferem dizer "interesse na realeza") e os valores da democracia liberal.


Não particularmente dados à nostalgia, costumam, não obstante, ficar fascinados com personalidades dinásticas de eras passadas, e não há problema, a nível humano, em haver simpatias a famílias reais autocráticas, tais como os Romanov russos, desde que se rejeitem tudo que esses dinas tas significaram ideologicamente.


 


O que vem a ser um paleomonarquista?


Paleomonarquistas são fiéis ao estilo político do tempo da Revolução Francesa, na qual a defesa da monarquia era um dos dois incisos fundamentais (sendo o outro a religião), definindo o Direito, como oposição à Esquerda anti-monarquista e anti-religiosa. Assim sendo, eles vêem sua defesa monárquica como uma parte integral de uma visão direitista do mundo, talvez o mais importante - o que não significa o único - inciso político. Eles tendem a ater-se às mais tradicionais formas da Cristandade, em particular a Ortodoxia Oriental ou ao Catolicismo Romano pré-Vaticano II.


Os paleomonarquistas tendem a ver as monarquias constitucionais de hoje, na melhor das hipóteses, como sombras patéticas daquilo que foram no passado ou, pior, a "fachada para disfarçar a tirania socialista".


Eles não têm interesse na democracia e aspiram à restauração das monarquias tradicionais, tais como a dos Bourbon, Habsburgs e Romanovs. Os paleomonarquistas tende à indiferença quanto à realeza atual, e causa-lhes tédio observar chefes de estado cerimoniais que aparentam adotar ou, no mínimo, tolerar muitas coisas que os tradicionalistas detestam (socialismo, secularismo, multiculturalismo, padrões de moral suavizados, cultura pop, etc.).


Eles gostariam de príncipes e princesas que aderissem ao antigo padrão de casar se somente com pessoas de igual posição, ou, pelo menos, não com mães solteiras. Eles tendem a ser descrentes quanto à transformação multicultural (via imigração em massa) da Europa e ressentem-se do aparente entusiasmo de dinastas como o Príncipe Charles por tal. Em pleno contraste com os neomonarquistas, os paleomonarquistas rejeitam muito da modernidade, e o monarquismo é apenas uma parte de seu desejo de "rodar o relógio para trás".


Como em qualquer generalização, essas categorizações são imperfeitas, e os leitores podem concluir que há quem concorde ou discorde com partes de ambas as descrições.


Por exemplo, eu conheço um monarquista que descreveu a si mesmo como um social liberal, e, não obstante, gostaria que dinástas realizassem matrimônios iguais.


Conforme implícito no primeiro parágrafo, eu próprio me vejo com um pé em cada campo. Enquanto inclino para o paleomonarquismo, em minha opinião ambos os pontos de vista têm suas virtudes e imperfeições. Felizmente, disputas sucessórias à parte, o tipo de animosidade que caracteriza os debates entre neocon/paleocon e neocatólicos/tradicionalistas parece estar muito distante do monarquismo, embora talvez assim seja apenas porque nós somos menores em número do que os conservadores ou Católicos, ou porque os dois tipos de monarquistas não interagem muito.


É certo que, considerando que as distinções supracitadas nada mais são que minha própria interpretação de impressões coligidas de comunicações privadas via email e visitas a web sites monárquicos e fóruns de discussão, fica difícil encontrar discussão para essa dicotomia.


Em todo caso, algo que poderia ser descrito como uma crítica ao paleomonarquismo, por parte de uma perspectiva relativamente neomonarquista, pode ser notado no artigo escrito em 1994 pelo secretário da antiga Liga Monarquista, Don Foreman, a respeito da realeza da França. Mr. Foreman questiona persuasivamente o critério que atém a causa restauradora ao Catolicismo tradicional, oposição à imigração e outras visões de cunho direitista.


Mais recentemente, a opinião neomonarquista expressou-se de modo mais defensivo (porém sem críticas ao paleomonarquismo) num ensaio intitulado "Por que a Realeza" ("Why Royalty") (não disponível na Internet), de um PHD, Glenn R. Trezza, inserido em fevereiro de 2003 no Jornal Europeu da História Real (European Royal History Journal).


O Dr. Trezza começa por descrever seu embaraço ante a descoberta de seus colegas progressistas de psicologia de seus interessa na realeza, temendo que eles pudessem ver nisso como uma "celebração do elitismo e das belas coisas dos opressores privilegiados".


A seguir, ele trata de justificar seu entusiasmo pela realeza européia sob uma perspectiva política, partindo de oito racionalizações que, juntas, consistem numa entusiástica e articulada defesa disto que se chama neomonarquismo.Exemplos do ponto de vista paleomonarquista incluem o artigo de Marian Horvart, já mencionado, os links disponibilizados na base desta página e os escritos de Charles Coulombe (Charles Coulombe's writings). O participante da "Free Republic", "Goetz von Berlichingen", também pode adequar-se a tal descrição.


Conforme já declarado, eu, pessoalmente, sou afeito ao paleomonarquismo, no sentido de que acredito na monarquia tradicional (não democrática), defendo pontos de vista contra-revolucionários em outros assuntos, não simpatizo com o declarado entusiasmo da realeza pela cultura pop e duvido que a monarquia, mesmo constitucional, seja compatível com uma visão de mundo esquerdista. No entanto, associo-me a outros reacionários nos quais percebo uma visão geral favorável à realeza contemporânea, e não creio que eles possam ser censurados por negligenciar resistência a diversos direcionamentos desastrosos ocorrentes em seus países, no decurso do Século XX.


A razão disto é simples: democracia e igualitarismo são orientações que se têm demonstrado incrivelmente poderosas; conseqüentemente, sem exceção, qualquer monarca que se recuse a tornar-se uma figura decorativa perde seu trono (e, no caso do Rei Luís XVI e do Csar Nicolau II, a própria vida). O mais recente exemplo de tal fenômeno na Europa foi o Rei grego Constantino II, que, ao procurar defender seus direitos (e a Constituição Grega), contra a ambição desmedida do Premier George Papandreou, pode ter sido heróico, mas acabou por levar a monarquia grega à queda.


Eu acredito que haja espaço dentro do monarquismo tanto para aqueles que pode atuar facilmente dentro da modernidade quanto para os que não se acomodam à mesma. Precisamos tanto de pragmáticos quanto de puristas, democratas e tradicionalistas. Não há razão para os monarquistas sucumbirem à mesma animosidade que divide os participantes dos debates políticos e religiosos citados acima.


Já que a ideologia democrática, que se tornou predominante no Século XX, não dá sinais de se ir tão cedo, a monarquia deve ser, no momento, defendida dentro de um contexto modernista, mas não há razão para que aqueles dentre nós para os quais ela está inexoravelmente associada a antigos valores abandonarmos os ideais contra revolucionários. Hoje, as monarquias européias (exceto o Liechtenstein) podem ser puramente simbólicas, mas os tradicionalistas talvez sejam os primeiros a reconhecer a importância dos símbolos, e estão prontos a defendê-los. Eu prefiro considerar uma monarquia sem poder como uma completa não-monarquia; por mais que desaponte as personalidades reais, seus inimigos republicanos são piores.


Portanto, minha esperança e que todos os monarquistas, estejamos ou não ansiosos por uma plena contra-revolução, continuem a dar às monarquias sobreviventes do mundo (bem como aos esforços restauradores, onde ocorram) o principal suporte que precisam e merecem.


Theodore Harvey (4/4/2003)


Poucos dias após ter escrito este artigo, ocorreu-me que a existência na Grã-Bretanha de uma venerável tradição de monarquia constitucional, precedente à Revolução Francesa, sugere a possibilidade de uma terceira tendência distinta, para a quais ambos os rótulos, "neo" e "paleo", são inadequados. O que poderíamos chamar Anglo monarquismo combina a crença neomonarquista na monarquia constitucional com a confiança do paleomonarquista nos valores tradicionais.


Os anglos monarquistas são aqueles que defendem plenamente os ideais da "revolução Gloriosa" de 1688, rejeitando tanto o Jacobinismo quanto o republicanismo; mas são céticos quanto ao mais recente "progresso". O jornalista britânico de direita Peter Hitchens é um bom exemplo, e muitos monarquistas anglófilos britânicos, canadenses, australianos, outros da Commonwealth e americanos poderiam, provavelmente, ser incluídos, também, nessa categoria.


Tradução de LUIZ COSTA DE LUCCA SILVA


www.royaltymonarchy.com

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